Arquivo de março \03\UTC 2011

O meu cabelo

Nessa vida meu cabelo já passou uns maus bocados incríveis.
Quando eu tinha uns 11, 12 anos, estava na moda a criançada ter um cabelo chocante, sabe como é, impressionar e chocar o mundo adulto e tal, mas eu sempre fui cagona para enfrentar papai e mamãe, além do mais, ainda tinha que ser aceita pelo grupinho do colégio – onde eu era estranha, gorda, orelhuda e pobre. E agora, COMOFAS? Me joguei naqueles sprays horrorosos – ainda vende? *-* – e fiquei com o cabelo rosa, roxo e etc… Não gostei, jogava a juba na água e estava tudo resolvido.
Mais velha e ainda necessitando da tal auto-afirmação, aos 17 resolvi pintar. Precisava ser algo para destacar a pele, mostrar que sou roqueira e ainda estar linda. Lá foi Luize se jogar nos vermelhos vibrantes. Primeiro para não me chocar e não chocar a sociedade abri mechas abóboras antes de me tornar um cone ambulante. O problema é que a cabeleleira se vingou do meu ilustre cabelinho e fez uma bosta de mechas desconexas. Nunca a perdoei. Depois me joguei nos abóboras e vermelhos extintor-de-incêndio com bastante descolorante para pegar, se houvesse água oxigenada 60vl eu estava usando. Uma maravilha moderna! Para completar o visual malvadona, ainda coloquei alargadores e furei mais alguns furos nas orelhas. Estava quase me sentindo Elvira a Rainha das trevas, quando entrei no mercado de trabalho. Entrei como nível técnico em uma empresa de renome e estar com os cabelos vermelhos e alargadores, poderiam não ser uma boa idéia.
Passei a cor que eu achava que era meu cabelo, castanho escuro. Ficou preto. Preto henê, sabe? Parecia que eu tinha alisado e espichado o pobre, quando o mesmo era liso. O bom dessa fase é que eu nunca mais me preocupei com o cabelo, o ritual de limpeza dele era o de sempre como quando era virgem, e ainda tinha mais uma vantagem, ao invés de lavá-los todos os dias (meu cabelo virgem é um poço de óleo), eu lavava de dois em dois! Então fui largando o cabelo crescer. Meu cabelo naturalmente é um castanho claro acinzentado se existisse, algo como 5.1, e começou a ficar em três cores, a natural na raiz, preto desbotado e um vermelho vibrante na ponta. Lindo. Finalmente quando cortei ficou virgem por igual e eu ganhei ares mais maduros. Foi uma época interessante, estava com uma boa posição no trabalho, elegante e bem mais velha. Esse foi o maior problema da minha juba, me envelheceram uns dez anos!
Certo dia no trabalho um colega estava tomando café comigo quando disparou:

– É Luize, nós, que já chagamos aos trinta temos que nós deparar com esse tipo de problema.

PERAE. Nós quem, cara-pálida?

– Quantos anos você acha que eu tenho?
– Uns vinte e nove, trinta. Você é de 80, né? Então você está fazendo 30.

Meu mundo acabou. Eu tinha 21 anos recém-feitos. Quando contei isso ao meu colega ele ficou azul de vergonha (e insistiu para mostrar minha identidade. Sensibilidade a gente se vê por aqui!). Foi então que passei a mais radical das transformações: fiz luzes. Não só luzes, mas balaiagens, reflexos e tudo mais que um descolorante azul pode fazer com você. Afinal mulher não envelhece, fica loira, mas, isso é caro. E eu sou pobre.
Mas a gente é pobre com o cabelo bonito. Resolvi fazer em casa, queria reflexos branquinhos. Resultado, perdi uma mecha significativa de cabelo deixando o descolorante por mais de 40 minutos em uma parte já descolorida.
Triste Fim de Policarpo Quaresma (Já leu esse livro? Não?! Larga esse computador e vai ler, rapá), caiu uma mecha do meu cabelo e ainda tive que queratinar o bichinho todo.
Mas eu sou brasileira e que faz jus a sua origem lusa – mal aí mãe! – não desisti e continuei aplicando descolorantes cavalares, hoje eu detenho uma juba loira que consome uma boa parte do meu pagamento, em tons que variam entre o loiro claro ao platinado. A raiz é descolorida, arde, dói, machuca, fede mas é gostoso.
Demorou um bom tempo até que eu ficasse loira discípula de Lady Gaga, mas consegui.
Enfim, deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz – ops, quer dizer, o cabelo.

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