Arquivo de janeiro \07\UTC 2017

Lithium

2016 foi um ano que eu achei que era terrível. Mas parando para pensar com calma, foi um ano de muito crescimento – não vou falar aprendizado porque sempre achei esse negócio de aprendizado uma maneira babaca de se referir com alguma superioridade a um fato que só te fodeu.

Voltando, 2016 eu perdi tudo. Ainda mais do que em 2015. Com a diferença que em 2016 eu perdi o meu referencial de mim.

Tudo começou com a idéia de tratar uma possível depressão. Observei que para uma depressão, eu não tomava antidepressivos, apenas estabilizadores de humor e até de fato estabilizar – o que não ocorreu com facilidade – é que finalmente inseriu-se o antidepressivo. O médico anunciou para mim “Agora que você está estabilizada podemos entrar com outra medicação”. Que porra é essa? O que está havendo? Eu sou estável! “Explica dotô”.

Pois é, o que era depressão na verdade era uma das minhas fases do transtorno bipolar. Fui diagnosticada como bipolar. Claro que não aceitei o diagnóstico de jeito nenhum. Porque eu sempre soube quem sou eu, o que quero e que raios eu estou fazendo aqui. Não mudo de ideia e ideal nem por reza forte, então bipolaridade não rola.

Ledo engano. Eu variava de humor. Minhas atitudes eram variadas. Faço ciclos enormes (4 meses na fase da euforia e 6 na depressão), tanto que sempre chamei de “os dias bons” e “os dias maus”, tem até época. Os dias bons eu me sentia superpoderosa. Escrevi minha dissertação de mestrado em 4 meses. Mudava a cor do cabelo, as roupas eram coloridas, ninguém conseguia acompanhar meu raciocínio e se tiver que virar a noite para resolver, sai de baixo. Cansei de olhar para as pessoas e julga-las por não conseguirem fazer milhares de coisas ao mesmo tempo que eu. Nos dias maus eu mal me levantava. Tudo era sem graça. Não vestia nada que não fosse preto e só queria cama. Sinto-me um fracasso e uma grande farsa.

BI-PO-LAR. Clássica. Com ciclos definidos. Sem ter estabilização – vou de um ciclo a outro sem fase neutra. Resistente ao lítio. Vai ser assim a vida inteira. com esse monte de medicação. Antis e antis.  A parte legal é que quando eu comecei a me tratar as confusões ficaram bem menores. Principalmente a ansiedade. A vida foi tomando cor, muitas coisas que eu fazia, passaram a ter explicação e eu consigo não as repetir.

Veio a fase de tentar pedir desculpas por todos os relacionamentos perdidos por conta dos ciclos. Aos amigos, aos meus pais…a todo mundo. Dizem que eu não deveria falar sobre isso, mas me sinto liberta quando assumo. Porque eu não sou mais aquela merda de pessoa, a doença me deixava assim. Eu sou legal. Juro.

Então é isso. Eu sei quem sou.

Sou engenheira. Administradora. Mulher. Funcionária pública. Filha. Irmã. Estudante. Professora. Mestre. Motorista.

Sou bipolar.

Ser bipolar não muda em nada quem eu sou. Explica os meus erros daqui para trás, mas permite que o daqui para frente seja feito da forma correta e segura.

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