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Lithium

2016 foi um ano que eu achei que era terrível. Mas parando para pensar com calma, foi um ano de muito crescimento – não vou falar aprendizado porque sempre achei esse negócio de aprendizado uma maneira babaca de se referir com alguma superioridade a um fato que só te fodeu.

Voltando, 2016 eu perdi tudo. Ainda mais do que em 2015. Com a diferença que em 2016 eu perdi o meu referencial de mim.

Tudo começou com a idéia de tratar uma possível depressão. Observei que para uma depressão, eu não tomava antidepressivos, apenas estabilizadores de humor e até de fato estabilizar – o que não ocorreu com facilidade – é que finalmente inseriu-se o antidepressivo. O médico anunciou para mim “Agora que você está estabilizada podemos entrar com outra medicação”. Que porra é essa? O que está havendo? Eu sou estável! “Explica dotô”.

Pois é, o que era depressão na verdade era uma das minhas fases do transtorno bipolar. Fui diagnosticada como bipolar. Claro que não aceitei o diagnóstico de jeito nenhum. Porque eu sempre soube quem sou eu, o que quero e que raios eu estou fazendo aqui. Não mudo de ideia e ideal nem por reza forte, então bipolaridade não rola.

Ledo engano. Eu variava de humor. Minhas atitudes eram variadas. Faço ciclos enormes (4 meses na fase da euforia e 6 na depressão), tanto que sempre chamei de “os dias bons” e “os dias maus”, tem até época. Os dias bons eu me sentia superpoderosa. Escrevi minha dissertação de mestrado em 4 meses. Mudava a cor do cabelo, as roupas eram coloridas, ninguém conseguia acompanhar meu raciocínio e se tiver que virar a noite para resolver, sai de baixo. Cansei de olhar para as pessoas e julga-las por não conseguirem fazer milhares de coisas ao mesmo tempo que eu. Nos dias maus eu mal me levantava. Tudo era sem graça. Não vestia nada que não fosse preto e só queria cama. Sinto-me um fracasso e uma grande farsa.

BI-PO-LAR. Clássica. Com ciclos definidos. Sem ter estabilização – vou de um ciclo a outro sem fase neutra. Resistente ao lítio. Vai ser assim a vida inteira. com esse monte de medicação. Antis e antis.  A parte legal é que quando eu comecei a me tratar as confusões ficaram bem menores. Principalmente a ansiedade. A vida foi tomando cor, muitas coisas que eu fazia, passaram a ter explicação e eu consigo não as repetir.

Veio a fase de tentar pedir desculpas por todos os relacionamentos perdidos por conta dos ciclos. Aos amigos, aos meus pais…a todo mundo. Dizem que eu não deveria falar sobre isso, mas me sinto liberta quando assumo. Porque eu não sou mais aquela merda de pessoa, a doença me deixava assim. Eu sou legal. Juro.

Então é isso. Eu sei quem sou.

Sou engenheira. Administradora. Mulher. Funcionária pública. Filha. Irmã. Estudante. Professora. Mestre. Motorista.

Sou bipolar.

Ser bipolar não muda em nada quem eu sou. Explica os meus erros daqui para trás, mas permite que o daqui para frente seja feito da forma correta e segura.

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I’ve been calling…

And I’ve been knocking, but no one answers.
And I’ve been knocking, most all the day.
Oh, and I’ve been calling “Hey, hey, Johnny!”
Can’t you come out to play?

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Depressão, você tem? Eu tenho.

Há muitos anos, passo campus universitário e vejo o pessoal da saúde dizendo que devemos conversar sobre saúde mental. Ignoro sumariamente. Primeiro porque sou da engenharia e se não tenho argumentos não vou atrapalhar. Segundo, nunca me interessou.
Há muitos anos também eu me arrasto com um vazio num peito e uma ansiedade que me consome, basta você recapitular nesse blog. E eu já fiz de tudo que você pode imaginar – além de ser diagnosticada com tudo que você pode imaginar. Minha ansiedade me engole diariamente e parece que mastiga, como se não bastasse, minha cabeça cria uma realidade cruel na qual eu vivo e sinto cada coisa que ela cria, quando eu conto às pessoas ela me chamam de dramática, mas aquilo para mim é tão real quanto o prato de arroz e feijão do almoço. Por mais que eu me esforce em não ver o mundo sobre esse ótica é única que existe na minha cabeça, para fugir dela, eu crio ótica com a visão dos outros e vou vivendo assim, estava dando certo até então.
Mas voltando ao caso da ansiedade e do eterno desânimo, nunca achei que fosse depressão na real. Porque sabe, sempre achei que depressão fosse aquela pessoa que não quer nem se arrumar para sair de casa, o que não acontece comigo. Eu estou sempre arrumada, maquiada e procurando algo novo. Converso com as pessoas.
Quando terminei o mestrado as dores no estômago e as noites insones e perturbadoras pioraram. Muito. Descobri que estava com uma úlcera nervosa. Sinal vermelho para estresse. Normal para quem termina uma defesa eletrizante na área de exatas como a minha, perde o concurso dos sonhos e está frustrada com a vida – opa! Luize, você precisa de ajuda.
Não, eu não preciso.
Fiz Ioga.
Corro 21km.
Não bebo.
Durmo 8 horas por dia.
Atividade físicas todos os dias e alimentação equilibrada
Estou dentro do meu peso.
Faço análise.
ESTÁ TUDO BEM.
*pausa dramática porque NÃO está NADA bem!*
Voltamos a primeira frase desse texto: “Precisamos conversar sobre saúde mental”. Procurei um psiquiatra quando dei chilique no meio de uma audiência no fórum. Ele me pediu uma bateria de exames que nenhum outro médico havia me pedido, entre eles uns nomes engraçados: cortisol, adrenalina, serotonina… e pediu que fizesse todos depois de descansada. Quando peguei os resultados, todos os valores de referência estavam 10 vezes alterados.
Voltei ao médico e saí de lá com 5 remédios controlados e descontroladamente chorando. A tal da fase de negação né. “Não sou louca”. Relutei a tomar os remédios. Porque né, conheço vários amigos que estão super bem, fumavam 3 maços de cigarro por dia foram meditar e hoje nem carne mais comem, por que eu, vou ser mais uma da prozac nation? Então, depois de muita conversa, a ficha me caiu. Eu estou doente. Tal qual quando tenho uma pneumonia. Pneumonia não se trata só correndo ou ficando de cabeça para baixo ou tomando matinhos. Eu preciso de remédios. Senão só piora. Meu corpo não se conserta sozinho. Ali estava claro, eu estava doente, os valores eram muito maiores que o de referência.
Na primeira semana eu fui 200 Luizes diferentes, mandei várias pessoas a merda, chorei 5 vezes na frente do meu chefe, dormi 3x no ônibus e não posso dirigir. Esqueci 4x como se fazia o cálculo da força momento numa viga, a bebida que mais gosto no mundo – Coca-Cola zero! – está intragável! E eu não tenho fôlego para ir na cozinha beber água. Essa noite pela primeira vez em 15 anos eu não pensei como seria bom não acordar mais e dar um silêncio no eco do meu peito. Essa noite eu nem pensei, eu fiz como era quando criança: dei boa noite a mamãe e papai, olhei para cama, puxei o coberto até o peito, esquentei meu coração e dormi – muito bem, sem vazio, obrigada!

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Uma carta para meu eu há 10 anos

E aí, Luize?! É assim que você prefere ser chamada então, mas já te adianto que daqui há dez anos será mais comum você ouvir “Lu” em referência a sua pessoa. Pois é, esse apelidinho minúsculo que você acha ridículo será sinônimo de carinho no futuro. Poderia te dizer muita coisa, mas se eu te dissesse você daria uma guinada que eu não estaria aqui, isso pode ser bom ou ruim, mas enfim, acho que no fundo você mandou bem nas escolhas.

Esse ano de 2004 será sim o que você espera, um dos melhores anos da sua vida. Você sempre se lembrará dele com um sorrisinho abestalhado no rosto. Mas ele não foi o único, houve anos tão legais quanto. Muitas coisas que você decidiu em 2004 continuam repercutindo até hoje na sua vida. Vamos ao conselho que a tia Lulu – apelidinho infame que você ganhou na faculdade – vai te dar.

  1. Você vai se estrepar na escola técnica, vai odiar com todas as forças física, e dizer que nunca mais entra em exatas na sua vida, e muito menos estuda numa Federal de novo…mas a vida é uma caixinha de surpresa, e você vai cuspir para cima e acertar no meio da testa. O melhor conselho que te dou é: estuda essa merda, você vai precisar muito desta bosta daqui há alguns anos.
  2. Sabe, você tem problemas com seus pais, isso não vai mudar. Cabe a você decidir pela sua vida ou não. Mas te digo com atenção, ouça papai. Talvez ser engenheira mecânica não fosse uma má idéia (ESTUDA ESSA MERDA DIREITO!).
  3. Você vai chorar muitas vezes por amor. E se acabar também. Você vai ver o fim do poço muitas vezes, mas sempre no meio do caos, você vai saber se reinventar. É a sua maior habilidade.
  4. Pare com essa mania horrorosa de andar arrastando os pés pela casa, você vai quebrar um pé por isso.
  5. Se choca aí, mas você vai ser “atleta”. E está puta da vida nesse momento porque chutou o sofá quebrou o pé e talvez não de tempo de se recuperar para sua primeira competição. Você corre muito!
  6. Seu namoradinho – que não vai dar em nada – diz que a UFF é a universidade mais fraca. Em alguns anos você vai mandar ele mentalmente tomar no cú e vai levantar seu moletom bege aos berros dizendo: SOU FILHA DA UFF, GRADUAÇÃO E MESTRADO!
  7. Um spoiler bem legal da sua vida: se em 2004 você odeia matemática, em 2014 ela será poesia aos seus ouvidos. Você amará estatística e na faculdade de engenharia se orgulhará de dizer que nunca reprovou em cálculo (na de engenharia, porque na de administração você reprovou uma vez hehehe). Matemática será sua vida e matemática aplicada na pesquisa operacional seu grande amor.
  8. Uma coisa engraçada a todos que te conhecem pela fama de má aluna: Não deixe se enganar, você é muito além do que você acha dessas funções trigonométricas. Chegará o dia em que as pessoas te perguntarão para resolver problemas complexos e você será referência em determinadas áreas. Quando terminar sua primeira faculdade (você fará duas!) se formará com excelência e honra, tendo uma homenagem que te fará chorar em todas as fotos. Será convidada a dar aula em faculdade e sua turma terá a sua idade. Você vai ser admirada por sua vontade de estudar, então, não se engane e se sabote se achando burra. Em dez anos, você estará conversando sobre seu anteprojeto de doutorado.
  9. Sabe essa história que se tudo der errado você vai ser mendiga em Paris? Pois bem…Paris sempre foi seu sonho, e você vai realizá-lo algumas vezes.
  10. Suas amigas de infância agora estão distantes de você, e você acha que a amizade de vocês nunca mais será a mesma. Verdade. Não será. Será muito melhor, maior, amor eterno hehe.
  11. Seus amigos de escola técnica continuarão sendo seus amigos. Não os que agora são mais próximos, alguns vão voltar a ser parte da sua vida algum tempo depois, continue sempre cultivando a amizade deles, eles serão boa parte de sua vida.
  12.  Muitas pessoas vão te fazer sofrer, muitas. Às vezes as que você mais ama. Seu mundo vai cair e você também, mas quero que preste atenção: todas elas serão de suma importância para que você se mexa e alcance sonhos que nem sonhou ainda. Todas terão um significado muito especial mesmo que você as odeie. Agradeça a Deus por terem cruzados o seu caminho.
  13.  Você está gordinha. Mas não será para sempre. Mas essa será a surpresa mais grata da sua vida, então não vou te contar mais!
  14.  Você vai ser loira. AHHHH vaaaai, e PLATINADA! Se choca.
  15. Luize, o mais importante: boa parte da sua vida você passará reclamando das suas escolhas, mas foram às melhores escolhas que você poderia fazer, elas são o que você é hoje. E o que você é hoje? Uma pessoa muito admirada pela força de vontade e pela disposição. Aos 25 anos você não terá o que boa parte dos seus amigos tem: casa própria, carro próprio (não, papai não vai te dar o maldito carro), um emprego foda, nem um bando de melequentos para cuidar. Mas você terá uma alegria imensa ao ver que na sua idade discute com pessoas estudadas, porque você é uma. Olhará para seu passaporte e verá que todo o lugar do mundo que quis conhecer, você conheceu. Você vai encontrar uma pessoa que sua vida será só completa enquanto a dela existir, e ela será o responsável por todo seu suporte emocional. E que sim, você tem uma Louis Vuitton original comprada em Paris – por você mesma.

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