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Selvagem

No meu último post aqui eu escrevia sobre o medo do futuro. O medo das coisas não darem certo. Sabe, na verdade, eu sou muito medrosa – apesar de acreditar que todos nós temos medo do que desconhecemos, por não saber lidar com isso – tenho medo do que pode vir, tenho medo do que não virá. E o futuro? Nunca consegui levar aquela máxima de “À Deus pertence”. Gosto das variáveis sob controle, além de gostar de ter ver seus limites de variabilidade terem começo e fim.

Acredito que eu não vá mais escrever nesse blog, ou vou, não sei. Sei que 11 meses desde o último post, não me torna a pessoa mais assídua, mas eu gostaria de escrever um pouco sobre o que 2015 tornou-se para mim – ele me fez encarar um dos meus medos pela primeira vez.

Esse ano eu terminei a dissertação de mestrado, achei de verdade que não iria conseguir. Sempre me achei uma farsa, estava no mestrado por caridade e não porque de fato eu merecia estar ali – mesmo que todos os dias eu repetisse a mim mesma que eu era foda. Sofri com a famosa síndrome do impostor – a vida inteira.

Então rolou a oportunidade de algo que era meu maior sonho de vida (tirando o inatingível é claro, que é a Petrobras), ou pelo menos aquilo ao qual me preparei nos últimos anos: O concurso para professor de uma universidade federal da minha cidade. Não era para cargo efetivo, mas é assim que se começa. Na minha área, pesquisa operacional.

Eu agarrei aquilo como se a minha vida dependesse daquele concurso, e na verdade, ela dependia. Não naquele momento, mas nos próximos. Durante a prova eu fiquei em 2º lugar, ouvi da banca que a minha aula didática não era tão boa. Foi aí que minha síndrome do impostor bateu mais forte ainda. Era a certeza que o que eu mais queria não era para mim. Eu era uma fraude. Naquela noite eu chorei muito, fiquei com os olhos inchados por três dias. No quinto dia, a universidade me ligou, dizendo que precisavam de mim. Eu fui. Assim começa o primeiro dia do resto de minha vida.

Foi um mês inteiro de preparação até o contrato ser assinado. Eu não era uma farsa, eles precisavam de mim, alguém enfim, precisava de mim. Vou resumir a história porque ainda vem mais coisa aí: eu declarei que era funcionária publica, administrativa e não pude acumular o cargo. Não pude pedir vacância por não ser efetivo na universidade, e me exonerar para algo provisório não rolou. Eu fiz o que pude. Não deu. Fiquei de cara com meu maior perder: meu sonho não deu certo.

Era para dar! Eu fiz tudo certo! Eu perdi noites a fio de sono, eu estudei coisas que odeio, eu perdi meus festivais favoritos, deixei de olhar as estrelas, engordei e tive gastrite – para no final perder o inicio do meu sonho, porque eu fui honesta. Honesta em um país onde o que eu mais vejo é desonestidade.

No meu do caos turbulento de tudo eis que me acontece até o presente momento uma das melhores coisas da minha vida: enxerguei quem eu era e quem estava ao meu redor. Muitas pessoas vieram falar comigo, algumas delas sem muita intimidade, as quais me diziam que estavam sentidas por não ter acontecido. Outras torciam muito. Eu, que tanto olho nos olhos dos outros via que eram sinceros.

Não deu. Não consegui. Eu fui honesta. Fracassei por ser honesta.

Querida, você não fracassou. O mundo precisa de gente honesta. A engenharia precisa de honestidade. Faz parte da sua profissão, nesse quesito, nesse momento você se mostrou uma engenheira de verdade.

Professor, eu consegui, mas não consegui.

Eu sabia que você conseguiria.

O senhor não me acha uma fraude?

Não, eu acho que você agarra tudo que faz e mostra com seu trabalho o quanto é boa. Eu me orgulho de você.

E eu que tenho tantos problemas antigos e arcaicos com meus pais, finalmente resolvi. Quando contei vi que eles estavam orgulhosos por eu ter conseguido passar, vi o quanto torceram para que desse certo e me apoiaram nas decisões de largar ou não meu emprego. Na verdade, eu vi o que minhas escamas me impediam de ver: eles sempre me amaram.

Eu precisava desse emprego por mim, pelo meu sonho. Eu não consegui. Mas eu ganhei muito mais ao perder: eu descobri quem eu sou. Deixo meu aprendizado aqui, para lembrar de quando os dias voltarem a ficar pesados.

As vezes aquilo que você mais quer, não vem. Então o que aparece é a sensação de derrota, fracasso e impotência. Eis, que no turbilhão de sentimentos que abatem o sujeito, Deus, na sua imensa gentileza, presenteia com pessoas maravilhosas, com palavras de conforto e dá de presente aquilo que você mais precisava ouvir. Aquilo que você mais queria não era aquilo que você precisava, mas o que você precisava veio da ausência do que mais queria.

Minha trilha foi perder esse pedacinho de sonho para descobrir meu caráter, minha resiliência e quem eu sou. Eu tenho muita certeza da fibra que eu sou feita.

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